Arqueu Bosquiel

O verbo

Posted in Clínica geral by Arqueu Bosquiel on 18/07/2017

Circunscrito ao verbo

O movimento é ação 

Um círculo de fogo 

Chamado coração 
Do distante ermo

Seguido seu percurso,

Um ponto em termo

Perfazendo um discurso.

 

Ah, nada sossega

O que está vivo!
E basta um pingo.

Os sonhos

Posted in Literatura, Poesias by Arqueu Bosquiel on 17/07/2017

 

Às vezes em certa época do ano entra frio pela madrugada e torço que passe logo. Sinto minhas costas geladas. É confortável quando me agasalho, mas posso ouvir a dança da noite com o silêncio. Lá fora caem as estrelas. Os ventos cósmicos envolvem de mistério a vida. Um canto penetra a pálpebra e junto a uma pequena lágrima tenho os olhos cerrados a espera de um sonho.

Alice no país das maravilhas

Posted in Cinema by Arqueu Bosquiel on 19/03/2011

 

Capítulo 6- Porco e Pimenta

Alice pergunta ao Gato de Cheshire, buscando sair da casa da Duquesa:

“(…)

“Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?”

“Depende bastante de para onde quer ir”, respondeu o Gato.

“Não me importa muito para onde”, disse Alice.

“Então, não importa que caminho tome”, disse o Gato.

“Contanto que eu chegue a algum lugar” Alice acrescentou à guisa de explicação.

“Oh, isso você certamente vai conseguir”, afirmou o Gato, “desde que ande o bastante.” (…) “

Dizem que os blogs…

Posted in Clínica geral by Arqueu Bosquiel on 13/03/2011

Dizem que os blogs vão acabar, pois não possuem leitores. Dizem que os blogs estão agonizando diante dos twiters, estes são curtos e que, eles também, estão perdendo para as redes sociais. Já disseram que os livros iriam acabar. Eu os compro pelo simples prazer de tocá-los. Ainda não achei a loja que vende o tempo para lê-los. Efim, os acabadores dizem que o blog vai acabar e pronto, porque não tem leitores.

O meu blog tem leitores. Passa por aqui, vez em quando, algum nascido, perdido como aqueles que se perdem na floresta da Tijuca. Este blog é uma árvore que não vivou papel, mas está aqui, na virava da floresta, no cantinho de alguém, que por um clique veio cá. Esse raro leitor não acaba nunca.

Dizem que o blog vai acabar. Tornar-se-á, ele, lembrança de bytes arquivado para que em algum tempo alguém o encontre, uma árvore-fóssil, um pequendo dino de sentimentos e razões dispersas para matar o tempo. Uma luz de estrela vinda do passado.

Haverá uma frase ou um trecho de poema que alguém desejará copiar, mas no mar da floresta não vai encontrar – e aquele que não queria…. Arte do encontro… Tão familiar.

Dizem que o blog vai acabar, o sol inchará, um meteoro arrebentará o rosto na Terra (já a caminho), uma ecatombe nuclear exporá nossa negligência, um vírus cibernético criado pelos conspiradores do planeta para que as macacas habitem suas árvores maiores e melhores, enfim, que tudo se acabará; dizem, dizem, dizem as bocas – existem as bocas.

Só não se acabará o instante, este perceber, estar, poder fazer. Esse não, que se acabar, nunca existiu. (?)

Quanto ao blog…

Rainer Maria Rilke

Posted in Literatura by Arqueu Bosquiel on 08/02/2011

Sim, foi ele um poeta. Lembro de ler, não sei onde, o seguinte: aprenda a guerra, para que seus filhos saibam a engenharia e os filhos de seus filhos a medicina e os filhos dos filhos de seus filhos sejam livres e aprendam a arte. Não conheço a genealogia de Rilke, mas sei que ele foi amante, por muitos anos, de uma que deve ter sido a mais formidável das mulheres, a russa Lou Andreas-Salomé. Nietszche por ela fora apaixonado e Freud contou com suas cartas para formatar sua teoria da psicanálise; mas foi Rilke que a transformou em musa inspiradora e fez cama quente aquela mulher-poesia. Uma ex-namorada minha, nitroglicerina pura, me mandou, certa vez, quando estava desarmado e o coração do lado de fora (incauto e curioso) um papel colorido em letra esmerada estilizada com perfume obsession dizendo: “Ela fez um círculo que me excluia, hermético, fechado, objeto de escórneo. Mas o amor e eu soubemos vencer: fizemos um círculo que a incluia.” Cruel, viceral, a poesia é muito poderosa.

É de Rilke:

“O destino não vem do exterior para o homem, ele emerge do próprio homem.”

“As obras de arte são de uma solidão infinita: nada pior do que a crítica para as abordar. Apenas o amor pode captá-las, conservá-las, ser justo em relação a elas.”

“Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade.”

“O amor é a ocasião única de amadurecer, de tomar forma, de nos tornarmos um mundo para o ser amado. É uma alta exigência, uma ambição sem limites, que faz daquele que ama um eleito solicitado pelos mais vastos horizontes.”

“Quem, se eu gritasse, em meio à legião de anjos, me ouviria?”

“Tudo quanto é velocidade não será mais do que passado, porque só aquilo que demora nos inicia.” (lindo!)

“Vivo a minha vida em círculos cada vez maiores / que se estendem sobre as coisas. / Talvez não possa acabar o último, / mas quero tentar.”

Diria, de atrevido, só mais uma coisa: a arte boa é viceral, como o livro que sangra.

Vai aí uma imagem do grande poeta:

Nelson Rodrigues…

Posted in Literatura by Arqueu Bosquiel on 05/02/2011

“Deve-se ler pouco e reler muito. Há uns poucos livros totais, três ou quatro, que nos salvam ou que nos perdem. É preciso relê-los, sempre e sempre, com obtusa pertinácia. E, no entanto, o leitor se desgasta, se esvai, em milhares de livros mais áridos do que três desertos.”

Grisha Parelman…

Posted in Clínica geral by Arqueu Bosquiel on 05/02/2011

Poincaré criou um problema matemático (conjectura de Poincaré) que durou um século. Uma sociedade classificou o problema com um dos sete enigmas matemáticos do milênio e ofereceu um milhão de dólares para a mente que o fizesse. O homem que o resolveu não era conhecido no meio científico. Surpresa geral e o primeiro grande acontecimento matemático do Séc. XXI foi premiado com um milhão de dólares. O ganhador, o russo Grisha Parelman, recusou a medalha e até hoje não foi receber o dinheiro, dizendo não fazer sentido algum. Continuou com sua vida tranquilo e calma, como vivem os regatos e as árvores. Foi um gesto de um gênio, totalmente fora do senso comum, que merece ser refletido. Sobre a curiosidade do mundo sobre si, disse:

“Eu não acho que eu seja de interesse público, eu não falo isso por causa da minha privacidade, não tenho nada a esconder. Só acho que o público não deve se interessar por mim Jornais deveriam ter mais discernimento sobre o que publicar, deveriam ter mais requinte. Até onde eu sei, não ofereço nada que acrescente à vida dos leitores. Publiquei meus achados. É isto que ofereço ao público.” Grigori Yakovlevich Perelman (Grisha Perelman)

Seria correto dizer: para que serve a fama e o excesso de dinheiro quando o espírito tem o universo?

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Mário Quintana…

Posted in Poesias by Arqueu Bosquiel on 31/01/2011

Bar

No mármore da mesa escrevo
Letras que não formam nome algum.
O meu caixão será de mogno,
Os grilos cantarão na treva…
Fora, na grama fria, devem estar brilhando as gotas
pequeninas do orvalho.
Há sobre a mesa, um reflexo triste e vão
Que é o mesmo que vem dos óculos e das carecas.
Há um retrato do Marechal Deodoro proclamando a República.
E de tudo irradia, grave, uma obscura, uma lenta música…
Ah, meus pobres botões! eu bem quisera traduzir, para vós,
uns dois ou três compassos do Universo!…
Infelizmente não sei tocar violoncelo…
A vida é muito curta, mesmo…
E as estrelas não formam nenhum nome.

Mario Quintana
(1906-1994)

Afinal, O Que Querem As Mulheres, por André Newmann…

Posted in Cinema, Literatura by Arqueu Bosquiel on 30/01/2011

Vinte mulheres, vinte respostas diretas (do queixo para o estômago):

“Por gentileza, afinal, o que querem as mulheres?”

1. “Eu quero me aclimatar.”

2. “Nós somos inchocáveis!”

3. “Trinta ao mesmo tempo…”

4. “Poder querer.”

5. “Eu acho que eu não sei se eu sei, mas eu só acho…”

6. “Como estamos sendo vistas?”

7. “Eu tô totalmente na sua…”

8. “Mas eu não sou mulher!”

Chagall - PromenadeChagall – Promenade

9. “Quero ser fluida como um deserto…”

10. “Incluindo o futuro? Ou o passado?”

11. “Menos mil perguntas.”

12. “Deslocar o ar…”

13. “Apenas pênis.”

14. “Uma crista redentora.”

15. “Brincar de coração.”

16. “Estar suada e feliz.”

17. “Não precisar mais ter de matar uma Fênix por dia para provar nada para ninguém…”

18. “Usar cavanhaque.”

19. “E se eu mudar de idéia?!?”

20. “Não lembro…”

É do blog do André Newman…

Posted in Cinema, Literatura by Arqueu Bosquiel on 30/01/2011

Estou aqui transcrevendo as centenas de entrevistas que faço pela cidade. Observanessa, perceberenice, arriscamila… Afinal, o que querem as mulheres? “Um mundo cor de rosa”, “o amor da vida”, “respeito”, “uma plástica”, “paz”, “dinheiro”, “tudo de bom”, …  São infinitas respostas, a pergunta está soterrada. É pouca pergunta pra tanta resposta. Compartilho algumas pérolas, um Top 3 dos últimos dias…

Banksy - artista inglêsBanksy – artista inglês

1. Uma Senhorinha, muito simpática, ao me ver com o gravador perguntou: “É pra tv? É Globo?”. Desfiz a confusão, expliquei a tese e perguntei se ela se incomodaria de me responder. “Claro, meu filho, claro…”. Liguei meu gravador, ela arrumando o cabelo… “Sra., afinal, o que querem as mulheres?”. Passou batom, olhou no espelhinho, fechou o último botão do casaquinho… “Pode repetir, meu filho?”. “O que vocês, as mulheres, querem?”. “Ah… É isso? Amor, meu filho! Amor…”. Retruquei: “De quem? Pra que? Por que?”. A Senhorinha simpática de Copacabana, já retomando seu caminho, explicou: “Meu filho, amor é status…”

2. Me aproximei de um casal e perguntei para ELA se poderia fazer uma pergunta. ELE disse que não. Respondi que a pergunta era para ELA. ELE, agressivamente, me disse que era ELE quem mandava ALI. ELA abaixou a cabeça. EU abaixei a cabeça. “Respeito”, “direitos iguais”, “amor da vida”, “rico e jovem, mas não pode ter pau pequeno”, …

3. Uma moça lá na universidade: “Nós queremos o homem perfeito, mas a gente sabe que ele não existe, mas mesmo assim a gente quer e continua procurando, mesmo sabendo que não tem, isso não importa, importa o que a gente quer, entendeu?”

(André Newmann)

Posted in Clínica geral by Arqueu Bosquiel on 30/01/2011

Fernando Pessoa

Posted in Poesias by Arqueu Bosquiel on 19/01/2011

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo…

Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar…

(Alberto Caeiro, em “O Guardador de Rebanhos”, 8-3-1914)

– – – – – – –

Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou…

Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!…

(Alberto Caeiro, em “O Guardador
de Rebanhos”
.)

Afinal, o que querem as mulheres

Posted in Cinema by Arqueu Bosquiel on 31/12/2010

Frases de “Afinal, O Que Querem As Mulheres?”, digirida por LUIZ FERNANDO CARVALHO, ditas em off por André Newman.

Estamos todos presos do lado de fora de um abraço. Todos nós ouvimos de uma mulher diferente Vai viver a sua vida! Vai viver a sua vida! Vai, vai, vai, vai, vai  viver a sua vida! Pena de liberdade perpétua. Estamos todos presos do lado de fora de um abraço.”

(Ep. 2)

Na minha vida encontrarei milhares de corpos femininos, desses milhares, desejarei algumas centenas, mas dessas centenas de mulheres, estarei amando só uma, e porque essa e não outra, o que me fará ter medo de perdê-la? Que parte desse corpo, que gesto dessa mulher, que palavra? O jeito de levar a mão na cintura, a mecha de cabelo que cai sobre a testa, o livro que lê sozinha na praia? São necessários muitos acasos e uma teia de coincidência para que eu a encontre. Enquanto isso não acontece, estou condenado a buscá-la, em estado de suspensão, com o espírito confuso, flutuando como mar, soprando como o vento, sem verdade nem palavra.”

(Ep. 2.)

Friedrich Wilhelm Nietzsche

Posted in Aforismos by Arqueu Bosquiel on 11/10/2010

As convicções são cárcere.

As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras.

Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.

Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade.

A essência de toda arte bela, de toda grande arte, é a gratidão.

Tudo que é reto mente. Toda verdade é sinuosa.

O homem procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventa outro mundo para poder caluniar e sujar este; de fato só capta o nada e faz desse nada um Deus, uma verdade, chamados a julgar e condenar esta existência.

O castigo foi feito para melhorar aquele que o aplica.

Saber é compreendermos as coisas que mais nos convém.

Apenas devia ser possuidor quem tem espírito: não sendo assim, a fortuna é um perigo público.

Falar muito sobre si próprio pode também ser um meio de se ocultar.

Para a mulher, o homem é  um meio: o objetivo é sempre o filho.

Não é a força, mas a constãncia de bons sentimentos que conduz os homens à felicidade.

O inimigo mais perigoso que você poderá encontrar será sempre você mesmo.

Sem a música, a vida seria um erro.


Concierto de Aranjuez

Posted in Poesias by Arqueu Bosquiel on 25/09/2010

 

Licores e chicletes

Tudo no sabor hortelã

Três doses de uísque

E o Miles Davis tocando na vitrola

Concierto de Aranjuez

Você olha para mim e

Súbito, diz

Me beija?

 

Imediatamente, de sobressalto e fundo

Tenho-me

naquele segundo

em que olho nos seus olhos

e me tomo de profundo

sentindo o seu tão confortável

agradável

calor, meus braços, seus abraços e

beijo.

 

É quando em minha pele

Eu sinto febre

E quanto mais…

Lento eu me torno

Que deste segundo

Eu não saio mais…

E a minha boca é o seu beijo.

 

Queijo com goiabada

A mesa noite é grande

E lá fora chove

Sinta

Você é uma geografia na  história de minha geografia

o vento, a brisa, o pôr-do-sol, as cores,

os tons, semitons, o som

dissonante,

Meu beijo em ti é música

Navegante…

 

Queimar

Os meus navios

Numa partida elegante

se em terra tão longe

querer ir adiante.